Ricardo, a Rocha
Para os mais distraídos, devo anunciar que o campeonato está quase no fim, o que é motivo para abrir aquelas garrafas de champanhe que um gajo tem guardadinhas em casa a ganhar pó à espera do dia em que o seu clube ganhe uma competição ou, no caso do Benfica, à espera que a equipa chegue à UEFA.
Vejo que o ávido leitor não compreende a euforia. Eu explico: vem aí o sempre divertido circo da pré-epoca! É uma fase muito apimentada pelas transferências fantasma anunciadas pelos pasquins do costume, Ronaldinho e Vieira no Benfica, Zezé Mija na Escada e Toni Cagalhão no Sporting... o que vale é que a realidade acaba sempre por ser bastante diferente e em vez de um Ronaldo aparece um Tó Barrete vindo do leste para reforçar o ataque encarnado, mas que depois acaba encruzilhado na batalha campal do meio campo benfiquista.
E é neste contexto que decidi fazer uma análise a alguns jogadores do Benfica. É que ainda não chegamos à pré-epoca, ainda estamos na pré-pré-época, mais precisamente. Vou começar pelo esteio da defesa encarnada, o homem que colocou o Ronaldinho no bolso, tal como muita gente fez questão de frisar: Ricardo Rocha.
Rocha não é o seu apelido, mas como o tipo é defesa deve ter pensado que encaixava bem com a sua posição e que muito artista jornalístico ia aproveitar para chalaçar o seu nome. Ora bem, se a ideia parecia boa, a concretização não foi feliz já que em termos qualititavos Ricardo está longe de ser uma Rocha. Não é uma pedra da calçada, nem sequer um seixo.
Ricardo nasceu em Santo Tirso, terra de brandos costumes e de um clube que vestia de preto denominado Tirsense. Foi nessa equipa que sobressaíram grandes jogadores do nosso futebol como o Paredão ou o Marcelo. Mas a grande estrela desta equipa era mesmo o "raçudo" Caetano. Um careca de meio metro que se atirava às canelas dos adversários como um bulldog. Foi talvez inspirado neste grande mito da sua terra que Ricardo cresceu para o futebol.Destacando-se no Famalicão, rumou a Braga onde assumiu a titularidade do clube do Minho e foi aí que começou a coleccionar cartões na Superliga com a facilidade de um veterano Veloso ou de um Paulinho Santos. O puto prometia aviar pau à moda antiga, o que entusiasmou as hostes benfiquistas que viram ali o novo Mozer. Só que esqueceram-se que o Mozer era um gajo mais experiente, com nível. O Ricardo, coitado, estava habituado a ver o Caetano debulhar pernas como gen
te grande.Eis então que o homem chega ao Benfica, esperançado numa carreira de sucesso. O Benfica seria o primeiro passo... contava chegar a um clube de topo europeu em dois anos. A titularidade não foi complicada de atingir, afinal de contas os centrais do Benfica eram o Paulo Madeira, o João Manuel Pinto, o Andrade e o Hélder. Ora com estes quatro artistas, até o Barbas teria hipóteses de atingir o 11 inicial. Nem que fosse para afastar os adversários pelo cheiro.
Até o ano passado, com algumas adaptações, as coisas corriam bem para Ricardo. Jogava, dava cacetada como se não houvesse amanhã e recebia, entusiasmado, cartões amarelos, vermelhos, o que viesse ele aceitava com agrado. Só que entretanto, o Leo e o Anderson apareceram na equipa. Ricardo não percebia o seu modo de jogar. Não atacavam o jogador, apenas a bola. Este estranho modo de jogar futebol atingiu-o como uma entrada a pés juntos. E no banco ficou durante boa parte da época.
Ressurgido na ponta final do campeonato, depois de perder dois rins em Barcelona, Ricardo pretende sair da equipa. É altura de partir pernas em campeonatos competitivos. O campeonato português fica mais pobre, perde-se um central à anos 80.

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